Maria Dundakova – 2005

26/janeiro/2006

Por: Vera Brant

Como é que eu poderia jurar amor eterno,

se amo as criaturas e o mundo

com a dosagem de amor de cada dia que renasço?

Não, eu não deveria me casar com o Leandro.

Amava-o, muito. Mas, quem garante que o amaria assim,

 com esta força, durante meses e meses, anos e anos? 

Viria a rotina, com certeza.

Os assuntos ficariam muito repetidos

e eu tentaria inventar alguma história nova

para contar-lhe, evitando aquele olhar desanimado

de quem escuta histórias repetidas.

No início seria ótimo.

Descobertas de pintinhas na coxa,

nas costas, que corpo lindo,

que mulher deliciosa, que isto, que aquilo. 

Noites e noites de encantamento,

o acordar feliz e encontrá-lo a meu lado.

A vontade de ficar abraçada assim,

não ir ao trabalho, só ficar juntinho,

fazendo amor e falando bobagens e achando graça.

O mundo lá fora se danando e a gente ali,

naquele amor particular.

Ele me amaria sem pressa,

saberia dosar o amor

e transformá-lo num acontecimento normal,

como se amar fosse

a coisa mais natural do mundo. 

E eu ficaria pensando ser aquele

o homem da minha vida,

em quem poderia confiar sempre,

sem censuras, sem freios.

E lhe confiaria todos os meus anseios,

as inseguranças e os medos. 

O tempo passando, os gestos se repetindo,

 a monotonia assumindo.

Ele passando a reclamar do arroz,

dos legumes mal cozidos,

da camisa mal passada, da batata gordurosa,

já não gostando de quase tudo

que adorava, antes.

Leandro se interessando

 por outra mulher mais jovem,

eu percebendo os olhares com ondas,

dos dois, e fingindo não entender,

morta de ciúmes. 

Ele se deitando na cama

com um livro desinteressante

 só para não ter que me acariciar,

naturalmente pensando na outra.

Eu me fazendo de idiota,

com medo de perdê-lo. 

E, quanto mais apavorada,

 mais desinteressante eu me tornaria. 

E teria aquelas dúvidas idiotas

de quem não tem coragem

de trilhar novos caminhos:

Será? Não estarei enganada?

Que nada, que nada.

Quando a gente começa a achar,

 é porque já é.

Tentaria reconquistá-lo e aí

é que a coisa ficaria trágica.

Ele com aquele olhar distraído fitando longe,

além de mim, e eu ali,

perturbando o seu sonho. 

Leandro sairia para jantar sozinho,

aniversário de um colega solteiro,

essas desculpas tolas.

E eu fingiria acreditar,

com receio de saber da verdade

e ter que assumi-la,

separando-me dele. 

No meu trabalho,

os colegas ficariam espantados

com a minha metamorfose.

Aquela mulher simpática, alegre,

inteligente e engraçada

encolhida num canto calada,

triste e suspirosa. 

Eu inventaria uma cólica qualquer

para ir para casa chorar,

com pena de mim.

Chegaria a um ponto que Leandro,

não suportando a minha humildade

e falta total de personalidade,

pediria o desquite. 

E eu sofreria meses e meses sem parar.

E choraria tanto que até me desidrataria.

Depois, mesmo que ele pretendesse voltar,

 mais tarde, um dia,

tudo seria diferente.

Cada momento de angústia seria cobrado.

Eu passaria a usar um freio

para impedir as emoções,

já agora censuradas.

E passaria a conter as alegrias,

 na preocupação de ter de devolvê-las,

mais tarde, no sofrimento. 

Pensava tudo isto

enquanto esperava o Leandro

na noite em que me pediria aos meus pais,

em casamento. 

Aceitei, naturalmente.

Vera Brant é empresária e escritora.

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